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Grupo Fitotécnico calcula a conta dos incêndios nos canaviais

Especialistas explicam sobre a reaplicação ou não de corretivos, adubos e herbicidas em áreas que sofreram com o fogo

A segunda reunião on-line do Grupo Fitotécnico de Cana-de-açúcar teve como temas as estratégias para lidar com incêndios em canaviais, manejos pós fogo e conservação do solo.

Logo na abertura, o pesquisador e coordenador do Programa Cana IAC, Marcos Landell, lembrou que no mês de março a cana já apresentava déficit hídrico. “Percebemos que seria um ano com incêndios em canaviais”, afirmou.

Manejo em canaviais incendiados

O professor da Universidade Federal de Uberlândia, Gaspar Henrique Korndofer, comentou sobre o manejo nutricional e a necessidade de reposição de corretivos e adubos onde ocorre a queima da palha ou da cana.

Ele explicou que durante a queima alguns nutrientes são perdidos por volatização (como o nitrogênio, boro e enxofre), enquanto que os demais (inclusive os metálicos) permanecem nas cinzas. O carbono e a matéria orgânica (não incorporados no solo) são perdidos e os adubos solúveis, aplicados após uma chuva, não se perdem porque penetram no solo.

“A queda de nutrientes depende da temperatura durante a queima (incêndio). Em campo, ao coletar o material residual, notou-se que o cloreto de potássio e o fósforo permaneceram, já o nitrogênio é totalmente perdido devido sua volatilidade. Outra amostra coletada em temperatura não muito elevada apontou que parte do nitrogênio se manteve”, observou Korndofer.

Também não há perda de calcário, mas uma oxidação das formas de carbonato, não caindo o valor fertilizante do material no solo.

O gesso, por ser um produto hidratado, foi recuperado, não ocorrendo queda, dessa forma, de cálcio e enxofre.

Entre as recomendações do professor, estão:

  • em adubo nitrogenado (sólido) com a ocorrência de chuva após a aplicação, não é necessária a reaplicação;
  • em adubo líquido aplicado antes da queima da palha e sem a ocorrência de chuva, deve-se fazer a reposição de 70% do N recomendado, não necessitando repor P e K;
  • em adubos organomimerais aplicados sobre a palhada antes da queima, o N é totalmente perdido, mas o P e K permanecem no solo;
  • em adubos minerais utilizados no enriquecimento da vinhaça localizada, os nutrientes N, S e Bo usados infiltram no solo e, portanto, não precisam ser repostos;
  • a matéria orgânica aplicada na superfície e não incorporada é perdida com a queima, porém o K, Ca, P e S permanecem no solo.
Manejo de herbicidas em canaviais precocemente queimados

O pesquisador e especialista em plantas daninhas e em maturadores do IAC, Carlos Azania, explicou sobre os herbicidas utilizados e a umidade presente nas localidades atingidas, considerando que no período de estiagem foram aplicados amicarbazone, sulfentrazone, clomazone, tebuthiuron, imazapic e flumioxazin, e o período de distribuição de chuvas se deu de abril a setembro.

“Aproximadamente 40 mm de chuvas ou irrigação são suficientes para movimentar os herbicidas pela palha até atingir o solo”, esclarece Azania.

Caso o herbicida tenha sido aplicado em abril, no final de junho estava com 40 mm de chuva, o suficiente para translocar a palha e ficar na superfície, necessitando de um pouco mais de água para melhorar a sua dinâmica no solo. Com a aplicação em maio, no mês de junho parte do produto deve ter atingido o solo, pois não teve água suficiente, ficando na superfície. Se aplicado em junho, o herbicida ficou até o início das primeiras chuvas em setembro na palha.

Azania lembra que o fogo na palha atinge uma temperatura perto de 800°C, e a temperatura abaixo de 1,5 cm do solo mantém a microbiota, degradando o herbicida, por isso a necessidade de sua reaplicação. “Na reaplicação, uma dúvida é sobre a interferência das cinzas, se elas retêm os herbicidas ou não. A cinza é um material inorgânico com baixo potencial de absorção de herbicidas, não funcionando como matéria orgânica, mas pode formar um filme sobre a superfície do solo, dificultando o contato do herbicida com ele”, esclareceu.

Ao longo do tempo, esta cinza, se volumosa, pode mexer com o pH do solo, deixando-o maior e podendo ionizar certos herbicidas. “Na reaplicação de herbicidas, deve-se aguardar as chuvas e o primeiro fluxo de sementes para aplicá-los com efeito pós e pré-emergentes (residual)”, concluiu Azania.

Indicador de ações de combate aos incêndios

Durante a reunião, o consultor Rubens Braga Júnior apresentou o novo indicador para quantificar as ações de combate aos incêndios pelo setor, uma amostra sobre os investimentos em medidas de prevenção ao fogo realizados nos canaviais em 2020.

“Fizemos uma pesquisa rápida, mas com uma resposta significativa devido à importância do tema, mostrando a preocupação ambiental do setor”, sinalizou Braga Júnior.

Para a pesquisa, foi enviado um questionário às usinas, indagando-as sobre o investimento anual para a prevenção e controle de incêndio, área e número de trabalhadores. 92 unidades responderam, totalizando uma área cultivada de 3,3 milhões de hectares na região Centro-Sul.

O estudo apontou um investimento de R$ 221.527.297,00 no ano de 2020, com 5.150 funcionários envolvidos apenas nesta tarefa. “Isso implica em um investimento médio de R$ 67,93/ha e mão de obra de 1,58 funcionário/1.000 ha”, contabiliza o consultor.

A região Centro-Sul foi dividida em duas, sul e norte. Neste cenário, a região sul apresentou o valor de R$ 43,98/ha e 1,53 funcionário/1.000 ha, enquanto a região norte R$ 85,15/ha e 1,61 funcionário/1.000 ha.

“Com a estimativa de uma área de 10 milhões de ha cultivados com cana no Brasil, o investimento anual seria de R$ 680 milhões e 16 mil funcionários envolvidos”, analisa Braga Júnior, indicando que o nível de investimento no setor é significativo.

Ações de prevenção

Todos sabem que incêndio é sinônimo de perigo e prejuízos. Diante disso, a Abag-RP faz um trabalho de conscientização e o setor, por sua vez, realiza investimentos em ações de prevenção.

“Incêndio não interessa para ninguém e, em 2020, o grande diferencial da campanha da Abag-RP, foi a contratação da Somar Meteorologia, com uma série de dados para formatar mapas de indicativo de risco de incêndio no Estado de São Paulo, a serem veiculados na web, nos telejornais da emissora EPTV das regiões de Ribeirão Preto e Campinas”, enfatizou Mônika Bergamaschi, presidente do conselho diretor da ABAG/RP.

Por: Revista Canavieiros